SOMP: sintomas, sinais e tratamento
Após vários anos estudando uma condição que era denominada Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), os pesquisadores perceberam que esse termo não abrangia todas as alterações que acontecem no corpo das mulheres que a apresentam.
Assim, recentemente, um consenso, que teve a participação de profissionais da saúde e pacientes de diversos países, propôs a mudança do nome desta condição para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
Esse nome reflete melhor uma condição que envolve alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias que afetam o corpo – um quadro que pode não contemplar a presença de cistos ovarianos patológicos. Por isto, a nova nomenclatura seria mais apropriada.
O que é a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), antiga SOP?
A Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) – anteriormente conhecida como Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) – é uma alteração metabólica e hormonal que afeta mulheres em idade reprodutiva.
Ela ocorre quando os ovários produzem androgênios em excesso, o que desregula o ciclo menstrual e prejudica a ovulação. Os androgênios são hormônios produzidos por mulheres e por homens, mas costumam ser bem mais elevados nos homens, o que faz com que algumas pessoas os denominem de “hormônios masculinos” (uma designação que não define corretamente o que são esses hormônios).
A condição envolve vários fatores, incluindo: aspectos genéticos, exposição precoce a hormônios androgênicos, alterações relacionadas à adiposidade e resistência insulínica, levando a alterações do eixo hipotálamo-hipófise ovários.
SOP agora é SOMP
Em maio de 2026, após um processo de consenso global rigoroso publicado na revista The Lancet, a antiga síndrome dos ovários policísticos passou a ter um novo nome oficial: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina – SOMP.
A mudança reflete uma visão mais ampla do que de fato ocorre nessa condição: o termo “metabólica” destaca a relação com resistência à insulina, e o termo “poliendócrina”, faz referência ao envolvimento de múltiplos hormônios.
Sintomas da SOMP (antiga SOP)
Embora a síndrome seja uma só, os sintomas e sinais variam de uma mulher para a outra, e também na intensidade com que se manifestam. Muitas descobrem a condição ao notar que a menstruação está atrasada ou irregular, ou quando surgem espinhas e/ou pelos em locais incomuns.
Mas o mais comum é a irregularidade menstrual. Geralmente, mas não obrigatoriamente, falamos aqui de ciclos mais prolongados (com mais de 35 dias) ou da amenorréia (ausência de menstruação).
Além disso, pode haver sinais de excesso de androgênios, como acne persistente e aumento de pelos no rosto e no corpo em locais onde não costumam aparecer em mulheres (hirsutismo). Pode ainda haver queda de cabelo com padrão masculino.
Outros sintomas e sinais que a mulher pode apresentar são:
- Ganho de peso ou dificuldade para emagrecer sem causa aparente, com acúmulo de gordura especialmente na região abdominal;
- Resistência à insulina – que pode causar escurecimento da pele nas dobras do pescoço, axilas e virilha, condição chamada de acantose nigricans;
- Dificuldade para engravidar, pela ausência ou irregularidade da ovulação;
- Cistos nos ovários identificados à ultrassonografia;
- Alterações de humor, ansiedade e depressão.
Além disso, mulheres com a síndrome têm maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2, pressão alta, alterações das gorduras no sangue e doenças cardiovasculares ao longo da vida. Além disso, a SOMP é uma das principais causas de infertilidade feminina.
Como é feito o diagnóstico da SOMP (antiga SOP)
O diagnóstico da SOMP compreende componentes clínicos e laboratoriais. Não existe um único exame que confirme ou descarte a condição – o médico avalia o conjunto de sintomas e sinais, o histórico menstrual e os resultados dos exames para chegar ao diagnóstico.
Para ser classificado com SOMP, o quadro deve atender aos critérios de Rotterdam, ou seja, dois dos três critérios abaixo devem estar presentes:
- Sinais clínicos de excesso de hormônios androgênicos, como acne, pelos em excesso e queda de cabelo, ou demonstrados através de exames laboratoriais com androgênios elevados;
- Disfunção da ovulação, com ciclos menstruais irregulares;
- Aspecto policístico dos ovários à ultrassonografia (US) ou hormõnio antimüleriano (AMH) elevado.
E alguns exames que o médico tem disponíveis para auxiliar no diagnóstico são:
- Dosagem de hormônios: LH, FSH, testosterona total (com cálculo da testosterona livre e biodisponível), androstenediona, prolactina e TSH – para avaliar o perfil hormonal e descartar outras causas de irregularidade menstrual;
- Glicemia e, se necessário, curva glicêmica, conforme a avaliação do médico; ele também poderá verificar se será necessária a dosagem de insulina e cálculo do índice HOMA-IR;
- Perfil lipídico, para avaliar se há dislipidemia associada.
- Hormõnio Anti-Mülleriano (AMH): ele costuma estar elevado na SOMP e é um marcador útil para o diagnóstico;
- Ultrassonotrafia transvaginal, que avalia o aspecto dos ovários e a contagem e características dos folículos (estruturas que contém o óvulo no seu interior).
Vale destacar que exames diagnósticos somente devem ser realizados sob prescrição do médico, que poderá solicitar outras avaliações além das descritas acima.
Também importante sempre considerar que outras causas de hiperandrogenismo e de disfunção ovulatória devem ser excluídas na abordagem diagnóstica.
Além disso, quando ciclos menstruais irregulares e hiperandrogenismo clínico ou laboratorial estão presentes, o diagnóstico é simplificado e ultrassom ou AMH não são necessários.
Qual é a importância do hormônio atimülleriano (AMH) no diagnóstico?
O hormônio anti-Mulleriano é produzido pelas células do ovário, responsável por regular o desenvolvimento e o crescimento dos folículos.
Esse hormônio ganhou destaque nas últimas décadas como um marcador da antiga SOP, agora SOMP, pois mulheres com essa condição apresentam níveis séricos de AMH superiores aos observados em mulheres sem a síndrome.
De acordo com esse documento de 2026, o AMH pode agora ser usado como alternativa a ultrassonografia (US) no diagnóstico de SOMP em mulheres adultas.
Esta recomendação é importante no sentido da sua realização, por uma coleta de sangue ser mais conveniente do que a realização de uma US, diminuindo também o risco de sobrediagnóstico (diagnóstico de SOMP em quem não tem a síndrome).
Diagnóstico da SOMP em adolescentes
A prevalência de SOMP em adolescentes é de 6,3 a 8,5%, de modo que é relativamente comum. É uma condição crônica associada a riscos metabólicos em longo prazo e a desfechos adversos na qualidade de vida das jovens.
Desse modo, o diagnóstico precoce e as intervenções preventivas podem ser aplicados, diminuindo os riscos decorrentes de disfunção metabólica e hormonal na vida adulta.
Entretanto, essa idade compreende uma fase de maturação reprodutiva, sendo importante diferenciar as adequações hormonais próprias da adolescência de um diagnóstico de SOMP.
Para o diagnóstico da SOMP nessa população, a última diretriz internacional sobre SOMP (de 2023) propõe critérios diagnósticos diferentes em relação a mulheres adultas, sendo que, nas adolescentes, a presença do hiperandrogenismo documentado e da disfunção ovulatória são consideradas para o diagnóstico, mas a ultrassonografia e a dosagem de AMH não são recomendados, devido à baixa especificidade nessa população.
Causas da SOMP
As causas exatas da SOMP ainda são estudadas, mas sabe-se que existe um forte componente genético. Se a mãe ou irmã têm a síndrome, as chances de apresentar o quadro são maiores.
Além da predisposição genética, dois mecanismos centrais estão envolvidos no desenvolvimento da condição.
Resistência à insulina
A resistência à insulina é reconhecida como característica fundamental da SOMP, embora não haja indicação rotineira de exames laboratoriais direcionados para que, obrigatoriamente, se dose a insulina.
Quando as células do corpo não respondem adequadamente à insulina, o pâncreas produz mais do hormônio para compensar. O excesso de insulina estimula os ovários a produzirem mais androgênios, o que interfere na ovulação e pode agravar os sintomas e sinais da síndrome.
Excesso de androgênios
O corpo feminino passa a produzir mais testosterona e outros androgênios do que o normal. Esse excesso interfere no amadurecimento dos folículos ovarianos, impedindo a ovulação regular e causando os sinais clínicos mais visíveis da síndrome – acne, pelos e queda de cabelo.
Tratamentos para SOMP
Como a SOMP é uma doença crônica, o objetivo do tratamento é controlar os sintomas e sinais, reduzir os riscos metabólicos e cardiovasculares e preservar a qualidade de vida. As abordagens variam conforme as necessidades de cada paciente, mas mudanças no estilo de vida são a base do tratamento em todos os casos.
Alimentação equilibrada e atividade física regular podem melhorar todos os aspectos da síndrome. Se o peso estiver acima do normal, uma perda de s 5% a 10% já pode ter impacto significativo nos sintomas e sinais.
Outros tratamentos que o médico pode lançar mão, conforme o caso e o momento de vida de cada mulher são anticoncepcionais, metformina, indutores de ovulação, além de outros medicamentos para melhorar os sinais decorrentes do excesso de androgênos.
Além disso, podem ser adotadas abordagens dermatológicas locais, como, por exemplo, tratamento local da acne e laserterapia para depilação.
Quem tem SOMP pode engravidar?
Sim. Ter SOMP não significa não poder ter filhos. A condição é uma das principais causas de dificuldade para engravidar – mas não é sinônimo de infertilidade definitiva.
O principal obstáculo é a irregularidade da ovulação. Sem ovulação regular, as chances de conceber naturalmente diminuem. Mas com acompanhamento médico adequado, a maioria das mulheres com SOMP consegue engravidar.
Mas somente o médico indicará o melhor tratamento, analisando caso a caso.
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Fonte: Rosita Fontes



