Hipertireoidismo: a principal causa é a doença de Graves, uma condição autoimune
As disfunções da tireoide são hoje consideradas algumas das enfermidades endócrinas mais prevalentes no mundo. A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que 750 milhões de pessoas no mundo tenham algum problema na tireoide, incluindo alterações de produção hormonal. Duas condições são mais comuns: o hipotireoidismo e o hipertireoidismo, ambas causadas por disfunções do sistema imune, a chamada doença autoimune.
O que é hipertireoidismo?
O hipertireoidismo é uma condição em que a tireoide aumenta a produção dos hormônios tireoidianos, elevando, portanto, a circulação e a oferta de hormônios para todos órgãos e sistemas do corpo.
Os principais hormônios produzidos e liberados pela tireoide são a triiodotironina (T3) e a tiroxina (T4). Eles são responsáveis por regular o metabolismo do corpo e participam de todos os processos fisiológicos do sistema cardiovascular, digestório e do sistema nervoso.
O problema pode surgir em qualquer fase da vida, mas a maioria dos casos ocorre entre a terceira e a quarta década de vida.
O que causa hipertireoidismo?
As causas do hipertireoidismo são variadas e podem incluir diferentes condições que afetam a tireoide. A principal causa é a doença de Graves, uma condição autoimune em que o próprio sistema imunológico produz um autoanticorpo (chamado de TRAb) capaz de estimular a produção de T3 e T4 pelas células foliculares da tireoide. Este distúrbio é o responsável por cerca de 80% a 90% dos casos de hipertireoidismo.
Outras causas da condição incluem:
- Nódulos tireoidianos tóxicos ou autônomos: o próprio nódulo produz e libera hormônios tireoidianos na circulação.
- Tireoidite: quando há uma inflamação da glândula tireoide, há um aumento da liberação de hormônios tireoidianos. A mais comum é tireoidite subaguda viral, porém, a própria tireoidite de Hashimoto, a causa mais frequente de hipotireoidismo, pode ter uma fase de tireotoxicose com destruição folicular e consequente hipertireoidismo.
- Efeitos colaterais de medicamentos: alguns fármacos podem afetar o funcionamento da tireoide e causar o hipertireoidismo ou hipotireoidismo, sendo o exemplo mais comum o medicamente para arritmias cardíacas chamado de amiodarona.
Quais são os sintomas de hipertireoidismo?
Os sintomas do hipertireoidismo tendem a afetar vários sistemas do corpo devido ao impacto no metabolismo. Entre os principais, estão:
- Perda de peso rápida e involuntária, mesmo com o aumento do apetite;
- Aceleração dos batimentos cardíacos (taquicardia);
- Tremores nas mãos;
- Sudorese excessiva e intolerância ao calor;
- Nervosismo, ansiedade e irritabilidade;
- Dificuldade para dormir (insônia);
- Alterações no ciclo menstrual em mulheres;
- Aumento do volume da tireoide, não obrigatório, conhecido como bócio;
- Problemas digestivos, com o aumento do número de evacuações.
Em alguns casos (30% a 40% dos pacientes), pode ocorrer a oftalmopatia de Graves, caracterizada inicialmente pela inflamação da órbita, podendo causar também proptose ou exoftalmia e até a diplopia (visão dupla).
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa a ser feito por meio de uma cuidadosa anamnese com avaliação de sintomas e exame físico. Diante da suspeita de hipertireoidismo, é feito essencialmente uma verificação do TSH, que pode confirmar a disfunção tireoidiana, a dosagem do T4 e T3 e a verificação do TRAb, autoanticorpo que estimula a produção de T3 e T4 e que está presente em 90% dos casos de doença de Graves.
O ultrassom da tireoide também é solicitado para verificar o volume da tireoide, presença de alteração da textura do parênquima, típico das doenças autoimunes, alteração na intensidade do doppler arterial da glândula e observar, ou não, presença de nódulos tireoidianos.
Em alguns casos, pode ser solicitada a cintilografia da tireoide, exame da medicina nuclear que utiliza iodo marcado para emitir radiação (mínima e segura). A cintilografia ajuda nos diagnósticos diferenciais e, na doença de Graves, ela demonstra grande captação do iodo e confirma o diagnóstico.
Hipertireoidismo tem cura?
O hipertireoidismo tem tratamento ou mesmo remissão no longo prazo. Especificamente na doença de Graves, o objetivo é restaurar a normalidade da produção dos hormônios tireoidianos, o eutireoidismo, com objetivo de melhora clínica e controle dos sinais e sintomas da tireotoxicose.
Qual é o tratamento para hipertireoidismo?
Geralmente, indicam-se medicamentos para reduzir a produção em excesso de hormônios tireoidianos, chamados antitireoidianos, como o metimazol. Na doença de Graves, o tratamento com iodo radioativo pode ser recomendado como forma de tratamento definitivo em alguns casos. Porém, normalmente ele leva ao hipotireoidismo permanente e, neste caso, seria necessário o tratamento com levotiroxina, o hormônio tireoidiano sintético.
No caso do hipertireoidismo, seja na doença Graves ou causado por bócios com nódulos autônomos produtores de hormônio tireoidiano, o hipertireoidismo também pode ser tratado com cirurgia, normalmente a tireoidectomia (retirada) total da glândula. Dessa forma, após a remoção, é necessária a reposição da levotiroxina, que ocorre de maneira segura e com bom acompanhamento médico.
É importante destacar que, atualmente, o tratamento inicial do hipertireoidismo, particularmente na doença de Graves, é o uso dos medicamentos antitireoidianos, como o metimazol. O tratamento com metimazol deve ser cuidadosamente monitorado pelo endocrinologista para garantir a estabilidade do TSH. Ao atingir a normalidade, o profissional também verifica se há queda nos valores do TRAb, o autoanticorpo capaz de estimular a produção de T3 e T4.
Durante o seguimento, o médico endocrinologista também aponta para eventuais indicações da radioiodoterapia ou indicações de cirurgia – a tireoidectomia total – como tratamento definitivo da doença de Graves.
Autor: Dr. Adriano Cury, médico endocrinologista do Alta Diagnósticos